As Bases do I Ching no Feng Shui

By Rafael • • 11 dez 2012

Na visão chinesa, todas as manifestações da natureza estão interligadas e contém a mesma matriz energética.

Claudia Valadares Arakaki, Sacerdotisa Taoísta, Professora e Consultora de Feng Shui Sociedade Taoísta do Brasil

Jornal Tao do Taoísmo – n. 13 índice

Foto: Cópia moderna de uma bússola de geomancia tradicional. Os profissionais de Feng Shui deviam ter uma sólida formação em quase todas as formas de adivinhação chinesa e, também, uma compreensão global da organização do universo.

As mesmas qualidades de energia que estão presentes na natureza, existem nos organismos dos seres vivos e também se encontram num imóvel. Mas, para perceber isso, precisamos basicamente entender como as energias se manifestam no Universo, segundo a visão taoísta. O trabalho de Fu Xi estabelece uma base conceitual, que nos possibilita compreender o posterior desenvolvimento do feng shui.

Fu Xi foi um grande mestre taoísta que viveu há mais ou menos 7.000 anos e concebeu o Yi Jing (I Ching). Ele percebeu que todas as existências do Universo são compostas de duas energias primárias: yin e yang. Yang tem uma natureza ativa, objetiva e direta e por isso é representado por uma linha inteira. Yin tem natureza receptiva, subjetiva e indireta, por isso é representada por duas linhas com um vazio entre elas. Yang é o movimento, expansão, luz, calor, ascensão, dia, não-matéria, o princípio masculino. Yin é a passividade, receptividade, sombra, frio, movimento descendente, noite, matéria, o princípio feminino.

O yin e o yang se manifestam no universo simultaneamente. Estas duas forças interagem num movimento equilibrado e isto é muito bem representado no símbolo do tai dji. Este símbolo nos mostra que quando a energia yin se torna plena, a força yang se recolhe; e quando a yang se expande a energia yin se retrai. Esta dança do yin e do yang acontece na natureza de forma constante e cíclica. Não existe nada no universo que esteja excluído desta lei. A alternância do yin e do yang caracteriza a mutabilidade de todas as coisas. Todas as matérias, das mais sutis às mais densas e todas as formas, sejam elas visíveis ou invisíveis, estão em constante mutação, ou seja, tudo é impermanente.

As energias yin e yang se manifestam na natureza na forma da noite e do dia, na lua e no sol, no inverno e verão, etc. Nos seres vivos, se expressa no feminino ou masculino, nas características passivas e receptivas ou ativas e dominantes de cada um. Na linguagem do Feng Shui, a natureza yin está presente em imóveis com alto grau de umidade, pouca luminosidade, com pouca circulação de ar, quietos ou isolados como os que ficam embaixo de vales ou em áreas muito arborizadas. Imóveis de natureza mais yang são os ensolarados, luminosos, arejados como os que se localizam no alto de uma montanha ou os que recebem maior incidência de luz solar.

Dentro de cada imóvel, também vamos encontrar os aspectos yin e yang. Ambientes íntimos, como o quarto de dormir e cômodos de meditação ou leitura, têm características yin, bem como áreas escuras ou os cantos dos ambientes, que são locais quietos e inativos, onde a circulação de ar e de pessoas é muito menor. Sala de estar, escritório, cozinha, sala de tv e varandas são yang porque favorecem a reunião de pessoas.

Fu Xi, dando continuidade às suas observações, percebeu que, de acordo com as características de cada uma das linhas que identificou, a linha yang representava o céu, que está no alto, onde tudo se encontra em atividade (nuvens, pássaros, astros, aviões, etc) e expansão. A linha yin representava a terra, que tem sua força concêntrica e recebe, de forma abrangente, todos os seres vivos do planeta. Por isso, ele uniu estas duas linhas, colocando a linha do céu em cima e a linha da terra embaixo. A fusão das duas energias gerou o gráfico das quatro fases, que representa os ciclos do tempo (manhã, meio dia, tarde, meia noite ou primavera, verão, outono e inverno), da vida (infância, adolescência, maturidade e velhice) ou de um imóvel (construção, auge do desfrute, declínio e deterioração ou demolição). Assim como não existe nada na natureza que seja permanente, não existe feng shui que dure para sempre.

Mesmo que um excelente Feng Shui seja realizado numa residência, os resultados deste trabalho também passarão por estas quatro fases. Nos primeiros meses, o feng shui não tem muita força de atuação, pois está na fase inicial da reestruturação das energias do ambiente. Depois que a nova organização energética se estabelece, há um período de plenitude onde os moradores desfrutam dos efeitos maravilhosos do trabalho. As pessoas podem sentir melhora na saúde, maior grau de prosperidade, mais harmonia nas relações familiares, aumento de concentração, mais produtividade, sono tranqüilo, enfim, inúmeros resultados podem ser obtidos. Os aspectos a serem beneficiados variam conforme o potencial que o imóvel tem a oferecer. Mas com o tempo, devido aos movimentos astrológicos, algumas das estrelas com as quais o feng shui trabalha, favoráveis quando estavam em seu período de plenitude, passam a entrar em declínio até que um dia se tornam desfavoráveis. É quando o feng shui tem o seu “prazo de validade” vencido. Estes efeitos podem durar alguns meses, poucos anos ou 20, 60, 180 anos… Isto não só depende do movimento do céu, mas também depende muito da capacidade do profissional contratado.

Posteriormente, Fu Xi percebeu mais uma linha a ser acrescentada, para representar um elemento que intermedia e sofre a influência direta do céu e da terra. Adicionou uma linha entre as outras duas simbolizando a posição do homem, situado entre o céu e a terra. Formava assim os oito trigramas utilizados no Yi Jing (I Ching).

Os oito trigramas representam a natureza no que diz respeito às oito direções cardeais. Nos seres humanos, cada um dos trigramas é associado a um membro da família arquetípica: Céu = pai, Terra = mãe, Trovão = filho mais velho, Vento = filha mais velha, Água = filho do meio, Fogo = filha do meio, Montanha = filho mais novo e Lago = filha mais nova. No feng shui, simbolizam as oito direções magnéticas do imóvel, cada uma carregando uma força própria, que favorece ou desfavorece a estrela que ali está presente. Os trigramas também definem o tipo de moradia mais favorável para cada pessoa, assim como as áreas em que cada morador se encontra mais suscetível às energias do ambiente.

Como se vê, na visão chinesa, não só todas as manifestações da natureza estão interligadas, como também contém a mesma matriz energética. Podemos então dizer que o objetivo do feng shui – assim como de qualquer arte taoísta – é a integração do homem com a natureza e os seus princípios são totalmente baseados na naturalidade desta relação.

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