Caos primordial

By Rafael • • 11 dez 2012

Wu Jyh Cherng, Sacerdote Taoísta, Ordem Ortodoxa Unitária, Presidente da Sociedade Taoísta do Brasil

Diz meu mestre que, na antiga China, a prática de meditação se chamava Aprendizado do Caos Primordial. E me ensinou que, no estado do caos primordial, não existe separação. Os grandes mestres aprendem a viver nesse estado, onde a consciência não está dividida, não é dualizada, não é colocada como eu observando o outro e o outro me observando; eu reagindo à observação do outro e o outro reagindo à minha observação. O homem deve aprender a retornar à origem, caos primordial.

Na meditação taoísta, é comum passar-se para um estagio de consciência alterada. Perde-se a noção de forma, a tempo, corpo. É o estado de caos primordial, semelhante à embriaguez. Nesse estado podem surgir manifestações de força e energia. Quando essas forças e energias surgem, nossa consciência, em geral, tenta sair do estado em que se encontra para retornar a um nível superficial e identificar o que está acontecendo. Porem os mestres taoístas avisam aos discípulos: “quando meditar e visões e sensações manifestarem-se, não ligue, não sinta”.

Não se trata de reprimir visões e sensações. Quando se reprime algo, significa se está aceitando essa mesma coisa pelo seu oposto, pela sua negação. Se surgir na frente uma imagem, não procure identificá-la e nem se abale por isso. Se a sua prática é contemplar a respiração, continue contemplando a respiração. Não importa o que tenha surgido: Cristo, Buda, Lao-Tzé, um búfalo azul ou verde. Você não deverá nem identificá-lo, quanto mais se preocupar com a cor do búfalo.

As verdadeiras experiências que estão alem da linguagem, da descrição, da forma, da palavra estão no estagio de Céu Anterior. Tao logo sejam descritas por palavras, imagens, cores e forma descem para o estagio de Céu Posterior. No taoísmo, isso significa que você sai do estagio primordial, da pureza, para o estado do julgamento. Devemos procurar não cair nesse estado durante a pratica espiritual.

As pessoas costumam perguntar: “o Mestre medita, medita e quando desperta, não sabe o que aconteceu, só sabe que foi maravilhoso? Não tem graça porque o meu vizinho guru, quando medita, vê raios vermelhos, etc.” Esse guru caiu na forma e aquele Mestre, não, portanto ele não identifica a forma, retira-se do nível do caos primordial, sai da profundidade e cai de nível, volta para o mais superficial.

Aí, vem a segunda questão: “Pra que vocês fazem isso? Meditar, desligado, achando tudo maravilhoso? É só isso?

Muitas práticas místicas dizem que, através da meditação, vou ver a luz, a aura, tirar os símbolos místicos para mim e ter acesso a segredos, saber o que aconteceu ontem e o que vai acontecer amanhã, e saber o que está na cabeça dele. O que o taoísta faz? Fica sem saber tudo que descobriu porque não pode saber? Então, ele está perdendo tempo.”

O taoísta não está perdendo tempo. O objetivo da meditação taoísta não é adquirir maestria sobre fenômenos, efeitos, ver um elefante cor-de-rosa ou bolinhas azuis flutuando no ar. O propósito essencial é levar a consciência de volta ao que deveria ser, ao estado ouro de absoluta quietude, lucidez e transparência, onde a consciência seja completamente desprendida e límpida, sem nenhuma fantasia ou elementos que a envolvam. Através desse túnel de caos você saia com a consciência límpida. Esse túnel de caos em que você vai entrar é um lago onde você entra para ser purificado pela água. Você entra, fica embriagado e sai da embriaguez com a consciência cristalina.

Os fenômenos para normais e extrasensoriais existem, mas isso não é iluminação. Iluminação é a transparência e quietude da consciência. É a lucidez que existe dentro de você, que faz com que você veja cada situação simplesmente como ela é.

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