Destino

By Rafael • • 11 dez 2012

Wu Jyh Cherng, Sacerdote Taoísta, Ordem Ortodoxa Unitária, Presidente da Sociedade Taoísta do Brasil

Mestre Maa diz que o Tao oferece a vida pra quem quer viver e a morte para quem quer morres. Isso significa que esse Absoluto não tem a intenção própria de determinar o que nós queremos; ele simplesmente nos oferece naturalmente as condições para aquilo que nós pretendemos conduzir.

Por que essa idéia é importante? Porque dá base para um dos conceitos fundamentais do taoísmo, que coloca cada pessoa como responsável pelo seu próprio destino. Ou seja: nós somos essencialmente responsáveis pelo nosso dia de amanhã, independente do que vamos encontrar, se é a vida ou a morte.

Para o taoísmo, não existe um destino que deverá ser vivido por nós fatal e inevitavelmente, determinado por alguém superior e supremo, que está acima da condição humana.

O que existe é um destino quase fatal e inevitável, determinado e escrito por nós mesmos num papel em branco que nos foi entregue por essa Condição Suprema – não importa se você o chama de Supremo, Tao, Virtude, Deus ou qualquer outro nome – exatamente para nele escrevermos nosso destino. Isso que escrevemos nesse papel em branco é que muitas vezes é tão bom ou tão mal escrito que faz com que nosso futuro, pelo menos o breve, seja quase fatal e inevitável.

Esse “quase” fatal e inevitável é como se fosse uma pessoa que está dirigindo numa estrada a 180Km/h e de repente se depara com outro carro que vem em sua direção ou um muro que está à sua frente. Ele percebe que vai colidir com o obstáculo, mas teoricamente falando, até o momento da colisão haveria chance de evitar o desastre, desviando o carro e retornando à entrada. Mas a aceleração foi tanta que, apesar de depender dele a possibilidade de evitar a batida, suas chances de conseguir evitá-la são ínfimas porque nessa hora a colisão é praticamente fatal e inevitável.

No momento em que ele acelera tanto seu carro, era o mesmo que estivesse assinando e selando seu destino naquela folha em branco que “Deus” ou o Absoluto havia lhe dado. A sentença que ele estava assinando dizia que o seu carro ia colidir com um obstáculo, mas quando ele percebe que vai bater, mesmo, quer voltar atrás e frear, mas já não consegue mais, não tam mais força para isso.

Nessa hora ele bate e nós podemos ficar com a impressão de que algo supremo teria dado a todos nós um destino fatal e inevitável, que Fulano teria que morrer naquele dia e daquele jeito, foi o Absoluto que determinou assim.

Teoricamente, no entanto, o desastre até que poderia ter sido evitado, mas na pratica não havia mais jeito. Não porque alguém superior assinou nossa sentença, mas porque nós mesmos escrevemos e assinamos os nossos destinos com precisão, em cada segundo da nossa vida. Muitas vezes ele está tão bem ou tão mal escrito que nós queremos modificá-lo ou deixar de escrever daquela maneira, mas já não temos mais tempo. Por isso o taoísmo enfatiza muito o trabalho da consciência.

O Tao, como aquele que gera, cria, dá forma e completa, dá uma carta branca a cada um de nós onde devemos escrever e assinar nosso destino, responsabilizando-nos por ele. Portanto, nós devemos ter a consciência do nosso próprio destino e da nossa própria natureza, bem como do destino exterior e a da natureza exterior para integrar nosso destino interior ao destino exterior e nossa natureza interior à natureza exterior, desarmando o castelo que nos “defende” da natureza para conseguir fluir junto com todas as coisas, sem atritos nem conflitos.

Dessa maneira, poderemos fluir junto com o céu e a terra. O céu é eterno e a terra é constante; eles vivem muito mais que nós, então se nós conseguirmos viver integrados com o céu e a terra, teremos a vida da infinitude e da constância.

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