Espelho do Céu

By Rafael • • 11 dez 2012

Wagner Canalonga, Sacerdote Taoísta, Regente do Templo SP da Sociedade Taoísta do Brasil

Jornal Tao do Taoísmo – n. 18 índice

O hexagrama Realização é formado pelo trigrama Lago sob o trigrama Céu

Sobre a superfície plácida de um lago, podemos enxergar o reflexo do céu e suas transformações, das estrelas e seus movimentos, da lua e seu brilho mágico. Quanto mais serena a água do lago, mais nítida e clara fica a imagem refletida. Porém quando a água se agita, primeiro a imagem se distorce, depois desaparece. O tamanho da imagem refletida também depende de outra característica do lago: a sua abertura. Quanto maior a abertura da “boca” do lago, mais ampla e abrangente é a visão do reflexo do céu. Mesmo que o lago seja muito profundo e tenha muita água no seu interior, se a sua abertura for pequena, o céu refletido dentro dele também será pequeno.

Há uma canção que diz: “os seus olhos são espelhos d’água”. Será que os lagos são os “olhos da Terra” contemplando o céu?…

Ao observarmos o mundo à nossa volta, nossa mente tem muitas semelhanças com o lago que reflete o céu. Serena e tranqüila, ela reflete as imagens do mundo com clareza e nitidez. Agitada e inquieta, porém, a mente pode distorcer bastante as imagens, ao ponto de nem conseguirmos ter consciência sobre o que está acontecendo à nossa volta. Tomar decisões e agir neste estado é como caminhar à noite em terreno acidentado: é grande o risco de cairmos em um buraco.

E assim como acontece com o lago, quanto maior for a abertura da nossa mente, maior será a abrangência da sua observação. A mente estreita, com pouca abertura, mesmo que seja profunda, interage pouco com o mundo ao seu redor. Interessante lembrarmos que a abertura do lago é definida pelas suas margens. As margens da mente são os seus limites, suas fronteiras, suas “demarcações”. E como expandir as fronteiras da mente?…

Chuang Tzu adormeceu e sonhou que era uma borboleta. Ao “despertar”, não sabia se era Chuang Tzu que havia sonhado ser uma borboleta ou se era uma borboleta que, naquele momento, sonhava ser Chuang Tzu.

Ao meditarmos ficamos parados e quietos, abertos e receptivos, feito um lago que reflete placidamente os movimentos do céu. Serenando, tranqüilizando e silenciando a mente. Abandonando os pensamentos e as expectativas, as criações e os julgamentos, os limites e os apegos. Deixando a consciência livre para fluir com o sopro para além das Três Fronteiras… (Fronteiras do desejo, da forma e da não-forma.)

A água da superfície do lago também evapora, tornando-se nuvem. Nesta hora, ela não mais reflete o céu: transcendendo suas próprias fronteiras e limitações, a água transforma-se em parte dele, tornando-se, então, una com o próprio céu! A Realização!

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