Saúde e Reflexão

By Rafael • • 11 dez 2012

Somos um sistema indivisível que inclui corpo, emoção, psique e ambiente.

Debora Dines Jornalista, autora dos livros Feng Shui e Medicina Chinesa, Coleção “Para Saber Mais”.

Jornal Tao do Taoísmo – n. 17 índice

Você já parou para pensar qual é o sentido do termo saúde? Os dicionários e a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) dizem que o significado básico é o bem-estar das funções orgânicas, físicas e mentais. Até aí nenhum mistério: todo mundo sabe disso. Mas quando o bem-estar deixa de existir? O problema da definição é justamente esse: saber qual é o sinal que indica uma situação contrária – o mal-estar – para se buscar um maior cuidado. Sem uma compreensão clara do que é falta de saúde, é mais difícil refletir sobre os procedimentos para se preservar o conforto.

Reagimos, por hábito, somente a indícios evidentes de desequilíbrio orgânico: alteração de temperatura corpórea, dores, digestão deficiente, suscetibilidade imunológica, fraqueza, alguma emoção angustiante, etc. Vemos o sintoma sem consideração ao resto do organismo – um costume que vêm de uma medicina baseada na fragmentação.

A medicina praticada no ocidente oferece médicos diferentes para estômago, coração, ossos ou emoção, sem que as partes se integrem em um só tratamento. Essa separação dificulta o reconhecimento pelo próprio paciente de um todo orgânico, do sistema indivisível que é o organismo humano. É como se analisássemos, em separado, cada uma das engrenagens de um complexo mecânico para garantir o bom funcionamento das partes. Por não conhecermos o fluxo integrado de toda a máquina, só percebemos sinais isolados. Quando a falha aparece em uma peça, aí o fluxo todo – que é interligado – já foi abalado.

A medicina chinesa, por outro lado, parte do princípio de que somos um sistema indivisível que inclui corpo, emoção, psique e ambiente. Esses princípios já constavam do Tratado Interno do Imperador Amarelo (Huang Di Nei Jing), o mais importante texto, escrito por volta do século I a.C. Na base dos ensinamentos, está o símbolo Tai Ji, o círculo que mostra a força yin (negra) e força yang (branca) entrelaçadas em perfeito estado de equilíbrio. Representa um ideal de harmonia com um fluxo contínuo de alternância e complementaridade, sem resquício de inibição, consumo, estagnação ou combate.

O conceito de harmonia embutido no Tai Ji explica tanto o funcionamento do organismo humano como a interação com o ambiente – yin e yang ganham correspondência com frio e calor, apatia e agitação, palidez e rubor, e assim vai. A mesma teoria diz que a natureza se manifesta em ciclos sucessivos de expansão e recolhimento. Os antigos sábios da China entenderam que, apesar da transição entre os ciclos (como na alternância entre a noite e o dia), há uma constância na ordem dos fenômenos e tudo está sujeito à mutação. Como tudo muda, então saúde e bem-estar não obedecem a uma regra fixa e constante, mas dependem da adaptação às mudanças cíclicas. Entre os fatores que podem influenciar a saúde estão o clima, as emoções, a alimentação, etc.

Outro importante conceito de tempos remotos é que recebemos influência direta da Terra e do céu. Somos um reflexo daquilo que se passa ao nosso redor. Na interação de forças entre organismo e ambiente, portanto, a atitude sábia é entrar em sintonia com o que o pede a atmosfera da estação e com cada momento. A ordem é sempre se adaptar.

O ensinamento do trigrama Montanha é oportuno na avaliação da conduta saudável e do bem-estar. A Montanha – que simboliza quietude e reflexão – representa quase um chamado para a pausa enquanto se inicia um introspectivo exame. Não se relaciona à falta de ação, e sim à interiorização do movimento. É o momento ideal para o reconhecimento de reações e emoções, da percepção dos excessos, deficiências ou estagnações. Comece a notar como você funciona e reage, quando as emoções se descontrolam e um desequilíbrio se sedimenta no corpo. Observe também o que provoca sensação de bem-estar.

A medicina chinesa enfatiza sempre a prevenção, que equivale à visão de um precavido estrategista ao pensar “revoltas não devem ser sufocadas apenas quando já tiverem estourado”. Através da reflexão e do auto-exame, além da compreensão da simbologia do Tai Ji, a definição do termo saúde se expande: o organismo passa a ser percebido através de um fluxo contínuo em interação com todo o ambiente.

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